24 de mar de 2014

Os 30 são os novos 20 (que pena)

Coincidentemente eu também tenho 33 e me sinto assim, muitas vezes.


– Os 30 anos são os novos 20.

por Renato Essenfelder (www.estadao.com.br)


A afirmação veio em tom de celebração. Uma amiga tentava consolar a outra, cuja estréia no tempo das balzaquianas se aproximava.

A aniversariante estava deprimida. Poxa, 30 anos? E agora? Só ladeira abaixo. E pior: eu ainda não tenho casa não tenho carro não tenho namorado não tenho tanta coisa que, com 20, imaginava que teria.

– Calma. Os 30 são os novos 20 – a amiga insistia.

Que pena, eu pensei. Com isso ela queria dizer, é claro, que a moça ainda era muito jovem e ainda aproveitaria muito a vida. Ainda havia tempo para baladas, para flertes e namoros, para shows, para viagens; para ser irresponsável havia tempo. Para tudo haveria tempo. Para amar e para brincar.

A moça estava cheia das melhores intenções ao tentar acalmar a amiga. Dizia a verdade: haverá, aos 30 anos ainda, tempo para semear e tempo para colher.

Mas para mim não pareceu o melhor dos conselhos. Confesso que, se me dissessem que “os 30 anos são os novos 20″, ali nos idos de 2010, quando fiz a temida passagem, eu entraria em pânico.

Não havia muita coisa dos 20 anos que eu queria reviver.

Esclareço. Meus 20 anos foram muito bons, como os de tantos, com sua mistura de aflições e liberdades. Mas ter 30 anos é muito melhor do que ter 20, e, finda aquela década, eu não esperava revivê-la.

Me enfadam as vítimas da síndrome de Peter Pan. [E são cada vez mais comuns.] Indo e vindo da Terra do Nunca, onde nunca envelhecem, nunca se aborrecem por mais de um dia, nunca são aborrecidos pelos constrangimentos da coerência. Não vivem no presente eterno, como alardeiam – como eu mesmo gostaria de poder viver, porque além e aquém do presente só existem ilusões. Vivem, sim, uma espécie de pseudopassado eterno, um simulacro do que poderiam ter sido – mas não foram. Correm atrás do próprio rabo imaginário: nunca foram o que acham que foram, nunca mais serão.

A história se repete como farsa, alguém declarou. Viver os 20 anos aos 30 é apenas isto: uma farsa.

O conselho me daria pânico porque eu, aos 33 anos, não conheço idade melhor do que esta. Não posso falar por mais ninguém nem nunca tive 40 ou 50 anos, mas aos 30 fui adquirindo mais maturidade para dizer não, para escolher melhor como investir o meu tempo – as minhas companhias, passeios, quimeras e desafios.

Eu gostaria que me dissessem que os 30 são os novos 30, que os 40 são os novos 40 e assim por diante. Que me dissessem que é possível viver exatamente a idade que você tem e ser pleno, sem precisar se escorar em ilusões.

Conheço melhor a mim mesmo hoje do que há 10 anos, e isso faz muita diferença na hora de decidir entre casar ou comprar uma biblioteca. Tenho mais segurança no que faço, e entendo melhor por que fracasso. Não me abato mais tanto; já li tantas vezes Não se mate, oh, não se mate que não penso em me matar. Que ridículo seria.

Entendo mais de poesia.

[Mas não o suficiente. Não entendo o suficiente e estou simpático ao mistério dos gorjeios, sempre.]

De resto, tenho a mesma boa disposição dos 20. E tenho mais dinheiro e independência para percorrer pequenos desvios. Conheço mais atalhos. Aprendi as ciências do corpo. [Seguindo ainda sob fascínios e descobertas.] Tenho amigos leais para a caminhada. Já seguraram a minha barra. Retribuí.

Tudo isso ao preço de mais responsabilidades; trabalho; paternidade. As costas doem. Os joelhos estralam insistentemente. Nunca me sobra muito tempo. Nada de sonecas pela tarde. Há muitos boletos a pagar. As contas chegam incessantemente:

pelo vão da porta,

pelo desvio da coluna,

pelas queixas dos vizinhos.

Pago-as todas, não me furto. Sigo sorrindo.

É um preço pequeno a pagar.

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