10 de mar de 2011

Cultura de Paz


Competição, consumismo, individualismo.

Será que nosso Mundo continuará a ser governado por estes ideais?

Como construir empresas, famílias e uma sociedade melhor sem alterar estes valores? Impossível.

Precisamos de valores novos que se traduzam em novas práticas no mundo dos negócios, nas relações humanas e na maneira como encaramos a vida.

Neste sentido, a Palas Athena é uma instituição que realiza um trabalho de referência internacional na criação e disseminação de uma Cultura de Paz.

Reproduzo abaixo um texto sobre o tema, escrito por Lia Diskin, fundadora da Palas.


A importância da Cultura de Paz no cotidiano

Em tempos como estes, que valorizam a novidade, que oferecem inovações, que vendem o último modelo, onde tudo se produz com data de validade para promover novas ofertas e com elas novos lucros, é razoável perguntar-se qual a direção dessas mudanças, que horizonte impulsiona esse fenômeno exponencial de criatividade cognitiva e mobilização cívica?


Os fatos são reveladores: a necessidade de sobrevivência da nossa espécie! Washington Novaes, destacado jornalista que há décadas se dedica às questões ambientais, manifestou sua perplexidade em artigo publicado em O Estado de São Paulo de 10/10/2008. Ali alerta sobre a alienação de políticos e economistas que visam atenuar as consequências da crise financeira global sem considerar as urgências de ordem ecológica, visto que o consumo humano ultrapassou em 25% a capacidade de reposição dos recursos naturais. Fazendo eco a essa advertência, Leonardo Boff, em artigo recentemente veiculado pela internet (15/04/2009), salienta: “O caminho mais curto para o fracasso de todas as iniciativas visando sair da crise sistêmica é esta desconsideração do fator ecológico. Ele não é uma ‘externalidade’ que se pode tolerar por ser inevitável. Ou lhe conferimos centralidade em qualquer solução possível, ou então teremos que aceitar o eventual colapso da espécie humana. A bomba ecológica é mais perigosa que todas as bombas letais já construídas e armazenadas”.

Em 1968, em plena campanha presidencial, Robert Kennedy levantou questões que ainda surpreendem pela sua atualidade: “Em demasia e por tempo demais parece que abrimos mão da excelência e dos valores da comunidade pelo mero acúmulo de bens materiais [...] O PNB (Produto Nacional Bruto) não mede nossa esperteza, nem nossa coragem, nem nossa sabedoria, nem nosso aprendizado, nem nossa compaixão nem nossa devoção por nosso País. Resumindo, ele mede tudo, menos aquilo que faz a vida valer a pena”. A simetria entre crescimento econômico e senso de bem-estar não se sustenta, e a supremacia da economia sobre as outras atividades da vida está fadada ao fracasso, pois o atendimento às necessidades consolidadas da vida passa pelo estabelecimento de relações saudáveis e contínuas. Para nós, humanos, significa ser acolhido e reconhecido, criar redes de confiabilidade mútua em que emergem a empatia, a identidade e o sentido de comunidade.

Um número significativo de economistas, cientistas sociais e ambientalistas vêem mostrando as distorções da realidade que esses indicadores de desenvolvimento apresentam. Algumas alternativas despontam de maneira promissora, principalmente o Indicador de Progresso Genuíno (GPI – Genuine Progress Indicator), que está sendo aplicado na condição de projeto-piloto no Canadá; ou ainda o de Felicidade Interna Bruta (FIB), índice criado no Butão, que considera o desenvolvimento integral e avalia: bom padrão de vida, educação e saúde de qualidade, vitalidade comunitária, proteção ambiental, acesso à cultura, gestão apropriada do tempo e bem-estar psicológico.

É sobre essa perspectiva que vemos crescer o número de contribuições por parte de cientistas, intelectuais, artistas, empresários, jovens e comunidades transnacionais que congregam seus conhecimentos, entusiasmo, recursos financeiros e tempo para ampliar a percepção sobre os enormes desafios de ordem estrutural que atingem, sem exceção, os quatro cantos do planeta, visto que essa terra de ninguém é a terra de todos enquanto comunidade de vida e de destino.

Nessa perspectiva é que a Assembléia Geral das Nações Unidas proclamou o ano 2000 como Ano Internacional por uma Cultura de Paz (resolução de 20/11/1997), e a década 2001-2010 como a Década Internacional para uma Cultura de Paz e Não-violência para as Crianças do Mundo (resolução de 10/11/1998), delegando à UNESCO a responsabilidade de promover e articular a campanha mundial que hoje congrega milhares de iniciativas no mundo todo, tornando-se um dos mais bem-sucedidos programas dessa agência.

O lançamento da campanha contou com o impulso do Manifesto 2000, concebido por um grupo de laureados com o Prêmio Nobel da Paz que, reunidos em Paris para as comemorações do 50º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, propuseram um repertório de valores, atitudes e comportamentos norteadores da vida cotidiana que viabilizam relacionamentos saudáveis na esfera interpessoal, familiar, profissional, social e planetária. É um convite pessoal de compromisso que tem como mote “A Paz está em Nossas Mãos”, evidenciando o poder e a responsabilidade de cada pessoa na construção do público e, consequentemente, do bem comum. Esse convite se expressa por meio de seis princípios:

1. Respeitar a vida – respeitar a vida e a dignidade de cada ser humano sem discriminação nem preconceito

2. Rejeitar a violência – praticar a não-violência ativa, rejeitando a violência em todas as suas formas: física, sexual, psicológica, econômica e social, em particular contra os mais desprovidos e os mais vulneráveis, como crianças e adolescentes.

3. Ser generoso– compartilhar meu tempo e meus recursos materiais no cultivo da generosidade e pôr um fim à exclusão, à injustiça e à opressão política e econômica.

4. Ouvir para compreender – defender a liberdade de expressão e a diversidade cultural privilegiando sempre o diálogo sem ceder ao fanatismo, à difamação e à rejeição.

5. Preservar o planeta – promover o consumo responsável e um modo de desenvolvimento que respeitem todas as formas de vida e preservem o equilíbrio dos recursos naturais do planeta.

6. Redescobrir a Solidariedade – contribuir para o desenvolvimento da minha comunidade, com a plena participação das mulheres e respeito aos princípios democráticos, de modo a criarmos juntos novas formas de solidariedade.

Para construção de uma nova visão de paz, é notável a insuficiência que o termo paz ainda carrega ao senso comum. Não é a ausência da guerra que caracteriza a presença da paz. É bom lembrar que ditaduras e regimes totalitários, autoritarismos e colonialismos eliminam, de início, qualquer tipo de confronto ou de conflito. “Para que haja paz”, propõe o sociólogo e o pioneiro nas dinâmicas transformadoras de conflitos John Paul Lederach: “não basta ausência de violência, é necessária a presença de uma interação e inter-relação positiva e dinâmica, o apoio mútuo, a confiança, a reciprocidade e a cooperação”. Nessa mesma direção, Johan Galtung afirma que a paz é ausência das múltiplas expressões da violência e, portanto, “é a condição que permite aos conflitos serem transformados de maneira criativa e não-violenta”, validando o conflito como inerente à experiência relacional humana fundada em bases democráticas – único espaço possível para a não-violência.

*Trecho retirado da cartilha Cultura de paz – redes de convivência, uma publicação do Senac São Paulo, escrita pela professora Lia Diskin, especialista em cultura de paz e jornalista, além de fundadora da Associação Palas Athena. A cartilha tem objetivo de exemplificar e esclarecer experiências de convivialidade e inspirar iniciativas com a finalidade da promoção do desenvolvimento humano, social e a cultura de paz.

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