22 de fev de 2009

Apenas um Homem Velho

"Responsabilidade Social", "Sustentabilidade", "Ética" e termos afins são cada vez mais comuns nos corredores das grandes empresas. É certo que alguns avanços tem sido alcançados nestas últimas duas décadas, mas cenas cotidianas como estas me recordam do quanto ainda estamos distantes de uma sociedade verdadeiramente justa.

Se todas as empresas são realmente tão "sociais, éticas e responsáveis" como se apregoa, porquê há tantas mazelas sociais no próprio entorno de suas sedes? (mendigos ao lado de prédios estrondosos são exemplos mais do que batidos para um morador de São Paulo...)





Mas quem se importa com aquele velho homem ali à margem da nossa alegria e pressa, mercando sua (nossa) miséria numa manhã qualquer de sábado? Quem se importa?

Balas. Apenas balas. Na Bahia da minha infância, chamava-se queimado. Talvez por ser feito de açúcar queimado – sei lá. Eram apenas balas o que aquele homem tinha para vender naquela suave manhã de sábado. Balas, com suas embalagens coloridas: azuis, douradas, prateadas. Bala de coco, amendoim, hortelã.


Ao ver aquele velho homem ali na calçada, com um olhar taciturno e o peso do mundo a esmagar-lhe os ombros, lembrei-me do alegre “baleiro” da minha infância, que despertava em nós, crianças do bairro, ainda mais, e intensa, alegria. O olhar perdido, triste daquele homem, diante do seu pequeno e precário tabuleiro, com parcos montes de balas mais ou menos sortidas, contrapõe-se ao olhar vívido do lépido vendedor de balas, o baleiro da minha infância, que soprava sua gaita estridente e gritava com energia: Baaaalêro! Uma alegria sortida de cores e sabores invadia nossas tardes de sábado, e corríamos todos, meninos e meninas, ao encontro do homem que era portador de inestimável tesouro, materializado sob a forma de preciosas guloseimas.

Como me pareceu amarga a vida daquele homem, que ali tentava vender uma ou outra bala a transeuntes apressados. Fiquei por alguns minutos ali, a observar-lhe a “vendagem”, a féria do dia. Longos vinte minutos se passaram sem que sequer lhe comprassem ao menos uma bala. Fiz os cálculos. Se, geralmente, vende-se três balas por R$0,10 (dez centavos de Real), quantas balas teria que vender aquele homem para tirar o mínimo que lhe propiciasse o sustento, o sustento diário que fosse? Dinheiro que desse para pagar, pelo menos, a condução e as duas ou três refeições do dia. Teria que vender, no mínimo 600 balas por dia. Improvável que conseguisse vender tantas balas assim! Sequer havia seiscentas balas naquele precário tabuleiro!

Uma questão se impunha: como aquele homem, que denominamos ambulante, conseguia prover seu sustento vendendo aquelas singelas balas? Será que ele realmente sobrevive daquele “ofício”? Ou contará ainda com uma miserável aposentadoria que lhe “complementa” a renda? Terão permitido-lhe o direito a uma aposentadoria? Quem sabe?

São questões que, obviamente, não povoam a mente das crianças – e, por que não dizer, tampouco dos adultos. Crianças e adultos apenas gostam de balas, e nada pretendem. Apenas buscam colocar um pouco de doce e alegria em seus dias de sonho, cinzas e incertezas.

Mas quem se importa se aquele velho homem melancólico, ali à beira da sarjeta, consegue prover o seu sustento e dos seus? Se ele tem uma vida digna? Se é alegre; se é triste; se é poeta – ou, ao menos, um homem? Quem se importa?

É perfeitamente verossímil imaginar aquele homem, que carrega nos ombros o peso de seu passado, saindo de casa, rumo ao seu ofício. Um beijo na fronte do neto: “Vovô vai trabalhar, meu filho”. Ele sai de casa, tranqüilo, sob o olhar compungido, respeitoso dos seus familiares. Um homem de bem que segue, com dignidade, para mais um dia de trabalho. Um trabalho “misterioso”, decerto digno, que todos desconhecem qual é, mas que, em sinal de respeito, ninguém nada pergunta.

Já ali, instalado no “seu ponto”, no “seu trabalho”, um lugar qualquer à margem daquela movimentada rua, a um passo da sarjeta, a maleta se transforma no precário tabuleiro e a realidade surge ali diante de nossos olhos passantes, diante do meu/seu olhar de desalento. A realidade, ali resumida, naqueles montes dispersos de balas, suas cores e (dis)sabores, naqueles níqueis, naqueles tostões reluzindo à luz do sol.

Mas quem se importa com aquele velho homem ali à margem da nossa alegria e pressa, mercando sua (nossa) miséria numa manhã qualquer de sábado? Quem se importa?

Autor: Lula Miranda - Agência Carta Maior

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